Vampiros têm o individualismo do predador e as necessidades sociais de criaturas que temem o mal-estar da solidão eterna. Loucura, corrupção, sensualidade, desconfiança e violência, tudo destacado por um pano de fundo de lívida melancolia.
Sou bem-nascido. Menino,
Fui, como os demais, feliz.
Depois, veio o mau destino
E fez de mim o que quis.
Veio o mau gênio da vida,
Rompeu em meu coração,
Levou tudo de vencida,
Rugiu como um furacão,
Turbou, partiu, abateu,
Queimou sem razão nem dó
-Ah, que dor!
Magoado e só,
-Só! – meu coração ardeu:
Ardeu em gritos dementes
Na sua paixão sombria…
E dessas horas ardentes
Ficou esta cinza fria.
Esta pouca cinza fria.
Manuel Bandeira, 1917
O Abraço
Ele acordava todos os dias, em horários nunca iguais, sem se perguntar pra que veio, obstinado somente a ser um bom filho, um bom namorado e um bom profissional.
Já havia perdido aquele ímpeto questionador da adolescência, de cujo espírito somente guardava as piadinhas descomprometidas com a lógica e humor encontráveis em lógicas e piadas que todos usam e contam. Desistiu de se rebelar contra o status quo das coisas, utilizando um humor bobo e, quando julgava necessário, ácido, como último protesto e mote para horas infindáveis de diversão.
Num dia não mais importante do que os outros dias, acordou, escovou os dentes, trabalhou e, ao final, ligou para seus dois grandes amigos, a fim de tomar uma boa cachaçada.
Depois de algumas doses de bons whiskys, acompanhadas de petiscos e risos, entregou-se à brisa da noite, junto com sua amada, dirigindo-se ao ponto de taxi mais próximo.
Com paletó envolvendo seu braço esquerdo, sobreposta uma gravata no arranjo, e a namorada enganchada no direito, cantarolava as músicas mais tolas, intercalando as desafinadas toadas com arroubos de paixão que redundavam em beijos apertados e cheios de suspiros. Rumavam por uma ruela pobremente iluminada, que interligava a área dos bares à avenida principal.
Restando por volta de uns 20 metros do percurso, interpôs-se ao final da rua um carro vermelho, esportivo, cuja presença passaria despercebida se o ruído do motor não fosse alto e gutural, mais lembrando uma briga entre rinocerontes truculentos do que a combustão controlada de gasolina.
Olhou para a namorada com uma cara de espanto dissimulado, dizendo:
- Meu amor! Que carro da porra! Tu compra um desse pra mim de aniversário?
- Claro que sim meu reizinho – retrucou a menina com gestos largos de reverência – é só me dar o dinheiro.
Depois de lançar um olhar de reprovação à sua nubente, fez cara de triste e seguiu a dar as passadas trôpegas de antes da interrupção. Passando ao lado do carro, não resistiu e gritou a plenos pulmões:
- Liso!!!
Gargalhou e correu, puxando sua amada pelo pulso.
Os dois, após alguns metros, impelidos a parar devido à falta de ar e risos, ignoraram o fato de que o carro, após os gritos, moveu-se em ré, tomando a direção da parada de taxi na qual esperava chegar o casal.
Emparelhado o automóvel, um vidro direito escurecido abriu-se pouco mais que lentamente, revelando ser uma figura feminina quem dirigia a máquina. Gabriel, novamente tentado a transformar a situação numa piada, dirigiu-se ao carro e debruçou-se na janela. Foi a última coisa que recordou.
Desperta num supetão, sentindo a maior fome que já experimentara. Viu sua namorada e a atacou ferozmente. Bebeu todo o sangue possível. Ajoelhou-se, olhou fixamente para o nada e desmaiou.
Acordou novamente num quarto escuro, com um frio lancinante, tendo sua atenção levemente redirecionada da gelidez à sensação de prazer que vinha de suaves lambidas em sua glande peniana.
Forçado devido às limitações dos olhos obscurecidos pelo que pareciam sintomas de uma forte pancada na cabeça, tateou – na altura de seus quadris – os cabelos lisos de uma mulher branca. Ao acurar a vista e recobrar parte da lucidez, notou que não se tratava da sua namorada, Gabriela. Esta, após giro vacilante de tronco, para o lado esquerdo da cama, estava com os peitos e pescoço estraçalhados pela ação de dentes longos e pontiagudos – e marcas de unhas profundas no pulso.
- Vocês homens são todos iguais. A única coisa que pode fazê-los acordar para a, abre aspas, vida, é uma boa chupada. – Desdenhou Mirtes.
Os Porquês
Era estranho, mas o que Gabriel sentiu, após acordar do que parecia um atropelamento, se resumia numa palavra: frio. Leve-se em conta a figura de sua futura esposa, totalmente desfigurada, o cheiro delicioso de sangue que inundava aquele quarto de paredes mortas e aquela absoluta estranha desferindo-lhe um misto de sexo oral e piadas do que descobriria ser o mais puro e refinado humor negro.
– Prazer – riu, limpando os lábios com as costas da mão direita – me chamo Mirtes.
– O que aconteceu aqui? Por que Gabriela está morta? Eu fiz isso? Quem é você? Onde eu estou? O que está acontecendo aqui?
Mirtes, após a última pergunta, fez uma cara de quem estava sendo gravemente perturbada, sibilou alto, clamando por silêncio, e disse-lhe enquanto levantava da cadeira que ocupava, prostrando-se de pé diante de Gabriel, com o peso do corpo descansado sobre a perna direita e mãos nos quadris:
– Vou responder somente às perguntas que não foram repetitivas, primeiro por que não gosto de conversar com gente burra e confusa – prováveis motivos de perguntas repetitivas – e segundo por que já atingiram um número maior das que foram respondidas a mim nesta sua situação.
- O que está acontecendo aqui – prosseguiu após olhar o estado do esmalte posto em suas unhas, completamente absorta e alheia – são os momentos constrangedores que, via de regra, ocorrem após um abraço. Você agora é um Vampiro, um amaldiçoado, um morto-vivo que, a exemplo do que fez com sua putinha aí, irá se alimentar do sangue de humanos e vagará pelas noites, até que enlouqueça e fique babando num canto de parede – fazendo movimentos repetitivos – ou fabrique um motivo para essa nova caminhada.
– A segunda pergunta é respondida pela primeira, mas se não ficou claro: você estava com fome, e ela foi sua primeira refeição. Acalme-se por que, se não fosse ela, seria outra pessoa. E antes que você vá pensando que ela não merecia, eu te pergunto: quem mereceria no lugar dela?
– Terceira pergunta… Óbvio que você fez isso. Eu que não fui. Viu? – mostrando as mãos e levantando levemente a saia de seu vestido preto furta-cor e, em seguida, apontando para as vestes de Gabriel encharcadas de sangue.
– Quarta pergunta: eu sou Mirtes, membro do Clã dos Ventrue, orgulhosa membro dos Invictus, sua genitora e serva – este último, para aquilo que me interessar.
– Quinta pergunta: você está na minha casa, no quarto onde levo minhas vítimas. Por sinal, você é meu primeiro amor, minha primeira cria, meu primogênito. Acho que vou te tratar com mais carinho por conta disso.
Seu coração não batia, não sentia o pulsar do sangue em suas vísceras. Tudo parecia ter parado de funcionar, tudo menos o cérebro. Por que logo o maldito cérebro não parou de funcionar? Mas o cérebro não o informava nada além de sinestesias – frio, dor, sabor, desconforto. Nenhum sentimento. Nem perda, nem tristeza, nem desespero. Nada.
– Bom… – prosseguiu Mirtes – já está respondido. Virou-se e, em sua caminhada de saída, foi interceptada por outra pergunta de Gabriel:
– Mas por que eu?
Mirtes parou quase alcançando a maçaneta bem trabalhada, em bronze, que guarnecia a porta do aposento. Olhou para trás:
– Juro por Deus – ergueu e baixou as sobrancelhas, esboçando um riso moleque, com um quê de maldade – que respondo só mais essa. E isso por que te disse que ia te tratar com mais carinho. Por quê você? Por ter me chamado de lisa. Você era uma vítima até o momento que me chamou de algo que eu não era. Já escutei muitos “gostosa”, “gatinha”, “charmosa” – de uns quitutes mais galanteadores. Mas lisa? – riu – me chamar de lisa fez-me rir de verdade, coisa que não acontecia faz algum tempo. Agora, lembre-se: a culpa é toda sua. Quem manda ser engraçado?
Fitou o rosto inerte de Gabriel, suspirou pesada e rapidamente.
– Já basta de perguntas por hoje – falou impaciente. E para que você não me interrompa novamente, aqui vai mais outra coisa importante: Meu senhor disse-me uma frase curiosa quando eu estava nesta fase de metralhar perguntas bobas, sem nenhum desdobramento prático. Deixe-me lembrar… Ah! Sim: “Quando se sabe que não se vai morrer de verdade, perde-se o sentido de urgência”.
– Vou sair. Se quiser mais respostas, use aquilo que eu te dei de informação e crie suas próprias verdades. Aconteceu comigo, e acontecerá com você. E veja, passei por isso tudo e não morri!
Surgiu novamente um sorriso no canto da boca de Mirtes.


Isso é muito triste. Vc me mata…
nunca mais eu vou pro Recife antigo com vc.
=~~~~
Muahahahahahhaha