Blog do Tuca

Santa Cruz e vida.

Indagações e constatações sobre religião.

Fim de semana passado estive em um evento da igreja episcopal carismática, chamado Cursilho.

Dentre várias constatações uma esteve muito clara em minha mente: a religião não pode ser meio de exclusão, de dissidência. Todas buscam um só fim: a prática do bem.

Lendo o mangá Berserk, no capítulo 225, me deparei com uma cena muito esclarecedora. Engraçado que para muitos a idéia de cooperação entre as religiões seja uma coisa tão absurda, e até um Gibi para crianças pode trazer a idéia tão bem ilustrada.

O grupo de Gats (personagem principal) está tentando salvar uma vila que está sendo atacada por demônios, neste grupo está uma Bruxinha. A estória se passa na idade média, onde a presença da igreja cristã romana era esmagadora. Em determinado momento, a bruxinha, percebendo que os habitantes do vilarejo procurariam a igreja local para se esconder, decide conjurar uma magia para proteger o prédio. Assim, dirige-se ao telhado do templo e inicia a conjuração. O padre do local, ao perceber os movimentos da bruxa, dirige-se a ela e tenta impedir a conclusão do ritual, tendo-o por um sacrilégio. A bruxinha, após concluir seu ritual e sair do transe,  salvando todos da cidade, dirige-se ao padre e trava o seguinte diálogo.

Padre: Você quer dizer que isso é magia? Eu não tomarei conhecimento de coisa tão malévola!
Bruxa: Serve-lhe bem.
Bruxa: Essas quatro luzes coloridas são a manifestação do poder espiritual dos grandes seres que nos agraciam com sua proteção, das profundezas do reino espiritual do nosso mundo. Estes grandes seres são o que é descrito como sendo os anjos guardiões dos pontos cardinais nas escrituras do seu vaticano. Você sabe.
Bruxa: Não importa o quanto você modifique as palavras que expressam certas idéias. O sol é o sol, a luz é a luz. Mesmo se as escrituras que nós recitamos são diferentes, os corações que buscam a salvação são os mesmos, certo? Usar esta diferença como desculpa para oprimir e dividir as pessoas é tolice. O nome de Deus pertence a Deus, não é coisa para ser controlada por outros.

Idéias e indagações sobre vidas secretas (sem pretensão de congruência e concisão)

As pessoas saem todas, coordenadamente, de casa.
Trabalham, comem, conversam as mesmas coisas.
Sonham o mesmo sonho. Aquele, padrão.
Mas, o que elas buscam?
É hipocrisia viver a normalidade da vida, quando tudo não passa de uma fachada que esconde aquilo faltante?
Uns poderiam dizer que o vazio é a falta de uma religião, a ausência duma ligação mística com algo duvino. Já outros culpariam a abstinência alcoólica e te chamariam pra o Guaiamum Nobre pra encher a lata de cana.
Uns diriam que a falta de foco e a indecisão são problemas comuns, que qualquer bom psicólogo resolveria. OUtros diriam para que se deixe de frescura.
Estar sentando, de pernas cruzadas, assistindo a vida do alambrado de um picadeiro, é uma posição muito perigosa.
É bom quando vemos as palhaçadas e rimos na qualidade de platéia. É bom rir das palhaçadas da vida. O problema é que o palhaço no picadeiro não está se divertindo, mas trabalhando! Os palhaços da vida exigem respeito pela sua profissão. Então, por mais que ache graça, devo sempre aquilatar se rio ou se me condolesço. Há uma linha muito tênue entre um ato compassivo e um corrosivo, quando as pessoas lúcidas o suficiente para enxergar as contradições da vida acabam se deparando com mais uma peça bem pregada.
Depois de uma risada, uns diriam que sou descomprometido, outros diriam que sou irresponsável. Eu, eu não ligo. Eu só ligo por que eu tenho que ligar – tá ligado? É assim que eles fazem! Então, sem contestar – ou aparentemente sem contestar – eu reproduzo as emoções, as ações, as desculpas, as justificativas. Reproduzo, sou bem aceito – afinal, não os faço contestar as próprias ações confortáveis – e sigo em frente.
Já vou eu pensando: todas estas pessoas que hoje me oprimem, com certeza já foram oprimidas pelos mesmos mecanismos.
Ok, todo mecanismo serve para um fim. Dessa pergunta eu não consigo escapar: a quais interesses este mecanismo serve? A que fins?

O Troco na Telemar (autor desconhecido)

Toca o telefone…

Alô.

- Alô, poderia falar com o responsável pela linha?

- Pois não, pode ser comigo mesmo.

- Quem fala, por favor?

- Edson.

- Sr. Edson, aqui é da Telemar, estamos ligando para oferecer a promoção Telemar linha adicional, onde o Sr. tem direito…

- Desculpe interromper, mas quem está falando?

- Aqui é Rosicleide Judite, da Telemar, e estamos ligando…

- Rosicleide, me desculpe, mas para nossa segurança, gostaria de conferir alguns dados antes de continuar a conversa, pode ser?

- Bem, pode.

- De que telefone você fala? Meu bina não identificou.

- 10331.

- Você trabalha em que área, na Telemar?

- Telemarketing Pro Ativo.

- Você tem número de matrícula na Telemar?

- Senhor, desculpe, mas não creio que essa informação seja necessária.

- Então terei que desligar, pois não posso ter segurança que falo com uma funcionária da Telemar. São normas de nossa casa.

- Mas posso garantir…

- Além do mais, sempre sou obrigado a fornecer meus dados a uma legião de atendentes sempre que tento falar com a Telemar.

- Ok…. Minha matrícula é 34591212.

- Só um momento enquanto verifico.

(Dois minutos depois)

Só mais um momento.

(Cinco minutos depois)

Senhor?

- Só mais um momento, por favor, nossos sistemas estão lentos hoje.

- Mas senhor…

- Pronto, Rosicleide, obrigado por ter aguardado.. Qual o assunto?

- Aqui é da Telemar, estamos ligando para oferecer a promoção, onde o Sr. tem direito a uma linha adicional. O senhor está interessado, Sr. Edson?

- Rosicleide, vou ter que transferir você para a minha esposa, porque é ela que decide sobre alteração e aquisição de planos de telefones.

- Por favor, não desligue, pois essa ligação é muito importante para mim.

(coloco o telefone em frente ao aparelho de som, deixo a música Festa no Apê do Latino
tocando no Repeat (quem disse que um dia essa droga não iria servir para alguma coisa?), depois de tocar a porcaria toda da música, minha mulher atende:

Obrigado por ter aguardado…. pode me dizer seu telefone pois meu bina não identificou..

- 10331.

- Com quem estou falando, por favor.

- Rosicleide

- Rosicleide de que?

- Rosicleide Judite (já demonstrando certa irritação na voz).

- Qual sua identificação na empresa?

- 34591212 (mais irritada agora!).

- Obrigada pelas suas informações, em que posso ajudá-la?

- Aqui é da Telemar, estamos ligando para oferecer a promoção, onde a Sra tem direito a uma
linha adicional. A senhora está interessada?

- Vou abrir um chamado e em alguns dias entraremos em contato para dar um parecer,
pode anotar o protocolo por favor…..alô, alô!

TUTUTUTUTU…

Desligou…. nossa que moça impaciente!

O nascimento de um Anjo Gabriel

Vampiros têm o individualismo do predador e as necessidades sociais de criaturas que temem o mal-estar da solidão eterna. Loucura, corrupção, sensualidade, desconfiança e violência, tudo destacado por um pano de fundo de lívida melancolia.

Sou bem-nascido. Menino,
Fui, como os demais, feliz.
Depois, veio o mau destino
E fez de mim o que quis.

Veio o mau gênio da vida,
Rompeu em meu coração,
Levou tudo de vencida,
Rugiu como um furacão,

Turbou, partiu, abateu,
Queimou sem razão nem dó
-Ah, que dor!
Magoado e só,
-Só! – meu coração ardeu:

Ardeu em gritos dementes
Na sua paixão sombria…
E dessas horas ardentes
Ficou esta cinza fria.
Esta pouca cinza fria.

Manuel Bandeira, 1917

O Abraço

Ele acordava todos os dias, em horários nunca iguais, sem se perguntar pra que veio, obstinado somente a ser um bom filho, um bom namorado e um bom profissional.

Já havia perdido aquele ímpeto questionador da adolescência, de cujo espírito somente guardava as piadinhas descomprometidas com a lógica e humor encontráveis em lógicas e piadas que todos usam e contam. Desistiu de se rebelar contra o status quo das coisas, utilizando um humor bobo e, quando julgava necessário, ácido, como último protesto e mote para horas infindáveis de diversão.

Num dia não mais importante do que os outros dias, acordou, escovou os dentes, trabalhou e, ao final, ligou para seus dois grandes amigos, a fim de tomar uma boa cachaçada.

Depois de algumas doses de bons whiskys, acompanhadas de petiscos e risos, entregou-se à brisa da noite, junto com sua amada, dirigindo-se ao ponto de taxi mais próximo.

Com paletó envolvendo seu braço esquerdo, sobreposta uma gravata no arranjo, e a namorada enganchada no direito, cantarolava as músicas mais tolas, intercalando as desafinadas toadas com arroubos de paixão que redundavam em beijos apertados e cheios de suspiros. Rumavam por uma ruela pobremente iluminada, que interligava a área dos bares à avenida principal.

Restando por volta de uns 20 metros do percurso, interpôs-se ao final da rua um carro vermelho, esportivo, cuja presença passaria despercebida se o ruído do motor não fosse alto e gutural, mais lembrando uma briga entre rinocerontes truculentos do que a combustão controlada de gasolina.

Olhou para a namorada com uma cara de espanto dissimulado, dizendo:

- Meu amor! Que carro da porra! Tu compra um desse pra mim de aniversário?

- Claro que sim meu reizinho – retrucou a menina com gestos largos de reverência – é só me dar o dinheiro.

Depois de lançar um olhar de reprovação à sua nubente, fez cara de triste e seguiu a dar as passadas trôpegas de antes da interrupção. Passando ao lado do carro, não resistiu e gritou a plenos pulmões:

- Liso!!!

Gargalhou e correu, puxando sua amada pelo pulso.

Os dois, após alguns metros, impelidos a parar devido à falta de ar e risos, ignoraram o fato de que o carro, após os gritos, moveu-se em ré, tomando a direção da parada de taxi na qual esperava chegar o casal.

Emparelhado o automóvel, um vidro direito escurecido abriu-se pouco mais que lentamente, revelando ser uma figura feminina quem dirigia a máquina. Gabriel, novamente tentado a transformar a situação numa piada, dirigiu-se ao carro e debruçou-se na janela. Foi a última coisa que recordou.

Desperta num supetão, sentindo a maior fome que já experimentara. Viu sua namorada e a atacou ferozmente. Bebeu todo o sangue possível. Ajoelhou-se, olhou fixamente para o nada e desmaiou.

Acordou novamente num quarto escuro, com um frio lancinante, tendo sua atenção levemente redirecionada da gelidez à sensação de prazer que vinha de suaves lambidas em sua glande peniana.

Forçado devido às limitações dos olhos obscurecidos pelo que pareciam sintomas de uma forte pancada na cabeça, tateou – na altura de seus quadris – os cabelos lisos de uma mulher branca. Ao acurar a vista e recobrar parte da lucidez, notou que não se tratava da sua namorada, Gabriela. Esta, após giro vacilante de tronco, para o lado esquerdo da cama, estava com os peitos e pescoço estraçalhados pela ação de dentes longos e pontiagudos – e marcas de unhas profundas no pulso.

- Vocês homens são todos iguais. A única coisa que pode fazê-los acordar para a, abre aspas, vida, é uma boa chupada. – Desdenhou Mirtes.

Os Porquês

Era estranho, mas o que Gabriel sentiu, após acordar do que parecia um atropelamento, se resumia numa palavra: frio. Leve-se em conta a figura de sua futura esposa, totalmente desfigurada, o cheiro delicioso de sangue que inundava aquele quarto de paredes mortas e aquela absoluta estranha desferindo-lhe um misto de sexo oral e piadas do que descobriria ser o mais puro e refinado humor negro.
– Prazer – riu, limpando os lábios com as costas da mão direita – me chamo Mirtes.

– O que aconteceu aqui? Por que Gabriela está morta? Eu fiz isso? Quem é você? Onde eu estou? O que está acontecendo aqui?

Mirtes, após a última pergunta, fez uma cara de quem estava sendo gravemente perturbada, sibilou alto, clamando por silêncio, e disse-lhe enquanto levantava da cadeira que ocupava, prostrando-se de pé diante de Gabriel, com o peso do corpo descansado sobre a perna direita e mãos nos quadris:

– Vou responder somente às perguntas que não foram repetitivas, primeiro por que não gosto de conversar com gente burra e confusa – prováveis motivos de perguntas repetitivas – e segundo por que já atingiram um número maior das que foram respondidas a mim nesta sua situação.

- O que está acontecendo aqui – prosseguiu após olhar o estado do esmalte posto em suas unhas, completamente absorta e alheia – são os momentos constrangedores que, via de regra, ocorrem após um abraço. Você agora é um Vampiro, um amaldiçoado, um morto-vivo que, a exemplo do que fez com sua putinha aí, irá se alimentar do sangue de humanos e vagará pelas noites, até que enlouqueça e fique babando num canto de parede – fazendo movimentos repetitivos – ou fabrique um motivo para essa nova caminhada.

– A segunda pergunta é respondida pela primeira, mas se não ficou claro: você estava com fome, e ela foi sua primeira refeição. Acalme-se por que, se não fosse ela, seria outra pessoa. E antes que você vá pensando que ela não merecia, eu te pergunto: quem mereceria no lugar dela?

– Terceira pergunta… Óbvio que você fez isso. Eu que não fui. Viu? – mostrando as mãos e levantando levemente a saia de seu vestido preto furta-cor e, em seguida, apontando para as vestes de Gabriel encharcadas de sangue.

– Quarta pergunta: eu sou Mirtes, membro do Clã dos Ventrue, orgulhosa membro dos Invictus, sua genitora e serva – este último, para aquilo que me interessar.

– Quinta pergunta: você está na minha casa, no quarto onde levo minhas vítimas. Por sinal, você é meu primeiro amor, minha primeira cria, meu primogênito. Acho que vou te tratar com mais carinho por conta disso.

Seu coração não batia, não sentia o pulsar do sangue em suas vísceras. Tudo parecia ter parado de funcionar, tudo menos o cérebro. Por que logo o maldito cérebro não parou de funcionar? Mas o cérebro não o informava nada além de sinestesias – frio, dor, sabor, desconforto. Nenhum sentimento. Nem perda, nem tristeza, nem desespero. Nada.

– Bom… – prosseguiu Mirtes – já está respondido. Virou-se e, em sua caminhada de saída, foi interceptada por outra pergunta de Gabriel:

– Mas por que eu?

Mirtes parou quase alcançando a maçaneta bem trabalhada, em bronze, que guarnecia a porta do aposento. Olhou para trás:

– Juro por Deus – ergueu e baixou as sobrancelhas, esboçando um riso moleque, com um quê de maldade – que respondo só mais essa. E isso por que te disse que ia te tratar com mais carinho. Por quê você? Por ter me chamado de lisa. Você era uma vítima até o momento que me chamou de algo que eu não era. Já escutei muitos “gostosa”, “gatinha”, “charmosa” – de uns quitutes mais galanteadores. Mas lisa? – riu – me chamar de lisa fez-me rir de verdade, coisa que não acontecia faz algum tempo. Agora, lembre-se: a culpa é toda sua. Quem manda ser engraçado?

Fitou o rosto inerte de Gabriel, suspirou pesada e rapidamente.

– Já basta de perguntas por hoje – falou impaciente. E para que você não me interrompa novamente, aqui vai mais outra coisa importante: Meu senhor disse-me uma frase curiosa quando eu estava nesta fase de metralhar perguntas bobas, sem nenhum desdobramento prático. Deixe-me lembrar… Ah! Sim: “Quando se sabe que não se vai morrer de verdade, perde-se o sentido de urgência”.

– Vou sair. Se quiser mais respostas, use aquilo que eu te dei de informação e crie suas próprias verdades. Aconteceu comigo, e acontecerá com você. E veja, passei por isso tudo e não morri!

Surgiu novamente um sorriso no canto da boca de Mirtes.

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